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Festa Junina

Arriégua que o nosso Arraiá foi bão demais da conta! Uma “noite na roça” que deixou saudade! Pra mó de passar essa sofrência, confira mais fotos aqui.

Semana da Sustentabilidade

Com o objetivo de promover uma vida com mais “saúde e bem-estar”, a Semana da Sustentabilidade foi idealizada para refletir com os nossos alunos práticas sustentáveis em nosso dia-a-dia. Clique aqui e confira nas fotos como foi a semana de palestras, atividades e oficinas.

 

A empatia brotará da planta dos seus pés

 

Trazer o tema da empatia para o Dia sem Sapatos visa um objetivo mais amplo: adotar o compromisso coletivo para viabilizar a construção comum de uma sociedade mais justa e fraterna, segundo a missão agostiniana. Nessa colaboração comumcaminhamos solidariamente uns com os outros! Além disso, significa, também, afirmar os tipos de relações que desejamos estabelecer entre as pessoas: relações de respeito, acolhida, compreensão, compaixão.

Viver a empatia é acolher narrativas, sonhos, desejos e dores. Por isso, escolhemos 9 personagens para contar suas  histórias de vida, relacionando com a temática do Dia Sem Sapatos. Confira abaixo:

Wilson de Almeida Sebastião

Sou Wilson de Almeida Sebastião, tenho 38 anos, sou professor e geógrafo.

Os membros da minha família são: meu pai, madrasta, eu, três imãs e um irmão e agregados.

Sou de família humilde, de origem camponesa. Sou filho de faxineira e de um operário, de uma montadora de veículos. Apesar das dificuldades sempre me incentivaram a estudar. Meu pai (alfabetizado) e minha falecida mãe (analfabeta) sempre falavam que tudo pode mudar por meio da educação, que com os estudos podemos conseguir algo melhor na vida e seria uma maneira de mudar a história de nossa família.

Eu fiquei órfão de mãe muito cedo. Ela faleceu com 36 anos de idade. Na época eu tinha 10 anos, uma irmã com 8 anos, uma com 5 anos e a outra com 4 anos. Eu fiquei com medo de que meu pai pudesse nos separar, porque tinha primos que foram separados quando um dos pais faleceu. Eu me sinto privilegiado pelo pai que Deus me deu. Meu pai fez de tudo um pouco para não nos separarmos. Mesmo trabalhando em turnos alternados em uma montadora de veículos, ele fazia sacrifícios para nos dar atenção, amor, carinho e educar a todos nós.

Foi muito difícil para mim ter que assumir as tarefas domésticas, cuidar das minhas irmãs, ajudar o meu pai, estudar… Perdi parte de minha infância, não foi fácil. Tive momentos de sufoco, tais como: uma irmã que colocou fogo nas bananeiras, outra que que dormiu após jantar e quase morreu sufocada porque a comida saiu pelo o nariz (ela ficou até no CTI), a outra se queimou com água quente quando brincava perto do fogão, mas Deus é tão maravilhoso que ela não ficou com nenhuma marca de queimadura.

Em alguns momentos eu pensava que não ia conseguir, pois me sentia fraco e sobrecarregado… É válido salientar que tudo é possível quando manifestamos a nossa fé. Com Deus podemos ter forças para prosseguir e colocar em prática o propósito que ele nos designou.

Antes de chegar até aqui passei por uma longa caminhada… um dos meus sonhos era ser motorista de caminhão, viajar, conhecer o Brasil, juntar dinheiro e depois fazer faculdade. Porém, ingressei no mercado de trabalho formal no McDonald’s; ainda trabalhando no fast-food, não tinha condições de pagar uma faculdade. Fiquei desempregado e tive a oportunidade de fazer um cursinho pré-vestibular. No início eu estava pagando, mas depois o dinheiro acabou. Para não parar de estudar, a dona do cursinho me deu um bolsa de estudos. Comecei a trabalhar no Mart Minas Atacadista e melhorei um pouco minhas condições. Assim sendo, consegui prestar vestibular e ingressei na universidade.

Logo começaram as lutas: investi minhas economias matriculando-me na universidade; depois vieram os boletos, livros, xerox, alimentação, passagens… Meu salário era a conta. Não sobrava nada! Para economizar, todos os dias andava a pé da Universidade próximo do Parque Fernão Dias até no Mart Minas. Meus calçados furaram: para disfarçar, cortava pedaços de outros mais velhos e colava com Super Bonder e passava Graxa Nugget.

Saí do Mart Minas e, com o acerto, paguei por alguns meses a faculdade e logo comecei a trabalhar na casa noturna Alambique. Pegava serviço às 21h e largava às 04h30 e, na maioria das vezes, ia direto para a faculdade. Fiquei por pouco tempo pois estava cansativo, mas para alcançar meus sonhos, mesmo desempregado, fazia pequenos serviços de informática no bairro onde morava até arrumar estágios remunerados, na prefeitura, MG-tempo, ALMG, Vale, serviço no Colégio Santo Agostinho como pró-aluno, professor no município, no estado e professor no Colégio Agostiniano Frei Carlos Vicuña.

Meus sonhos se realizaram, mas nasceram outros: investir mais na carreira como docente e empreender, atuar como voluntário, fazer viagens à Europa, entre outros…. Contudo, quem não sonha perde a essência da sua existência… Nós, seres humanos, fomos criados para superar os próprios limites…

Aprendi, com a minha própria história, que eu devo valorizar mais o meu pai, a família, o meu emprego, a minha “profissão missão”, e acreditar que sou capaz de superar meus medos, limites e que posso ser útil para a minha família e para com a sociedade.

Maria da Conceição Maciel Romano

Meu nome é Maria da Conceição Maciel Romano, tenho 64 anos e nasci em Sobrália, em Minas Gerais. Venho de uma família de 05 irmãos. Somos de uma família muito simples e humilde. Eu, meus irmãos e meus pais morávamos na roça, sobrevivendo da plantação de arroz, feijão e milho de que cuidávamos. Tudo que colhíamos era dividido com o nosso patrão.

Quando eu era pequena cheguei a ir à escola, mas tive que parar porque tinha que ajudar meus pais na plantação.

Quando eu tinha 15 anos, vim para Belo Horizonte ficar com minha vó e trabalhar, porque na minha cidade as condições de vida eram muito difíceis. Vim morar na Vila Cemig, na região do Barreiro onde moro até hoje. Meu primeiro emprego foi trabalhando em casa de família. Devido a isso, não podia estudar porque eu trabalhava muito e ainda tinha que cuidar de toda a casa e das crianças da patroa. Eu acordava muito cedo para trabalhar e dormia no serviço. Não sobrava tempo para estudar. Eu precisava do dinheiro para me manter.

Aos 26 anos eu me casei com meu esposo José de Paula Romano e tivemos 03 belos filhos. Quando casei não trabalhei mais porque meu marido achava que eu estava cansada de trabalhar na casa dos outros e que era melhor ficar cuidando da nossa casa. Nessa época nunca pensei em estudar. Achava que já tinha passado o tempo para isso.

No ano 2000 minhas amigas começaram a estudar no Colégio aqui perto de casa e eu, vendo a animação delas que eram da minha idade, me animei a ir. Comecei a estudar por um tempo, mas não pude continuar porque, para chegar à escola, tinha que subir muito morro e isso me atacava a bronquite e a asma, e eu passava muito mal.

Em 2006 fiquei conhecendo a Oficina do Saber por meio de algumas colegas que me chamaram para participar. No início eu achava que não ia aprender nada, pois já estava com mais idade. Eu não sabia nem escrever meu nome, meus documentos eram todos assinados com o “dedão”. Mas, aos poucos, a professora Graça foi ensinando e eu fui aprendendo a ler, escrever, aprendi a escrever o meu nome. Depois que já sabia escrever um pouco, passei para a professora Keila, com quem fui aprendendo cada vez mais.

Em 2014 meu marido faleceu e eu fiquei muito triste, já não tinha vontade de sair de casa e participar das aulas na Oficina do Saber. Mas as professoras e alunas me deram muita força. Visitaram-me, ligavam para mim falando para eu voltar a estudar. E aí eu voltei e, estando aqui, no convívio com minhas colegas, elas me deram força e eu pude superar essa perda.

O Projeto (Oficina do Saber) me ajudou porque eu antes tinha vergonha de ficar no meio das pessoas, só respondia se alguém perguntasse alguma coisa, senão eu ficava calada o tempo todo. Eu era muito tímida, tinha medo de falar. E participando, eu aprendi a me desenvolver mais.

Eu sinto muito bem estando aqui no projeto porque aqui é um lugar acolhedor, a gente conversa um com o outro, faço as atividades de que gosto e isso me deixa feliz.

Para mim, ter estudado me permitiu ter mais liberdade, crescer como pessoa. Antes eu não sabia ler, não podia pegar um ônibus porque não sabia o que estava escrito e para onde ia, não podia assinar nada, nem mesmo fazer compras direito eu podia porque eu não sabia ler nada. Agora eu vejo tudo diferente, é como se abrisse um novo mundo… agora sei ler, faço contas, posso ir fazer compras sem medo de comprar alguma coisa errado. Agora me sinto mais feliz. Quando a gente saber ler, a gente consegue saber onde está entrando e saindo.

Para vocês que estão estudando agora, aproveitem o tempo porque aprender as coisas é muito bom. Eu passei muitas dificuldades em minha vida porque eu não tive oportunidade de estudar. Então, aproveitem essa oportunidade.

Kelly Crystine da Silva

Kelly Crystine da Silva, 25 anos, nascida em Belo Horizonte, cursando o 8º período da EJA. Filha de Pedro Xavier da Silva e Elane Cândido Inácio da Silva. Sou filha única.

Em 2012, aos 18 anos, tive um AVC. Eu era noiva, estava na faculdade fazendo Gestão de Recursos Humanos, na UNA, e trabalhava no Minas Tênis Clube, na Savassi. Era uma excelente funcionária e boa aluna. Após o AVC, fiquei 18 dias em coma, pois estourou uma veia na minha cabeça. Mesmo com cirurgia, eu fiquei com sequelas: perdi um pouco da visão, um pouco da audição, a minha fala ficou prejudicada e a minha memória ficou muito comprometida (esqueci o trabalho, da faculdade e das pessoas). Eu não lembrava de nada.

Durante 06 meses fiquei usando fraldas e em cadeira de rodas. Eu não reconhecia objeto nenhum. Fiquei assim por vários meses. Após a cirurgia, os médicos disseram que a chance de minha sobrevivência era quase nenhuma e, se sobrevivesse, seria vegetando. Como o meu lado direito ficou paralisado, tive que aprender a usar a mão esquerda para escrever. Após a cirurgia, eu também tive estenose (não conseguia respirar), tive que fazer cirurgia na traqueia, o que cortou um pedaço da mesma. Eu tive que ficar 02 meses de cabeça baixa, sem levantar o pescoço, senão poderia morrer.

Comecei fazendo fisioterapia em casa com ajuda da minha mãe e depois eu fui fazer no Hospital Sarah. Minha mãe pegava uma foto, um chinelo e um pente e ia me perguntando o que era. Até que um dia eu me reconheci numa foto.

Quando o Hospital Sarah pediu para que minha mãe encontrasse algo para mim, escola nenhuma me aceitou porque eu já tinha um histórico escolar. A minha mãe veio ao Vicuña e conversou com a Arlene sobre a possibilidade de estudar aqui. Após conversa, a Arlene me levou, junto com minha mãe, à Oficina do Saber onde fui bem acolhida por todas. Lá eu comecei a aprender tudo de novo, iniciei na alfabetização de adultos. Após 03 anos na Oficina, eu vim estudar no Frei Carlos Vicuña no 6º período.

Meu sonho é voltar a cursar uma faculdade novamente e ir morar nos Estados Unidos. Quero ir para os Estados Unidos porque acredito que lá haverá mais recursos na medicina para eu poder recuperar o movimento da minha mão direita.

Eu aprendi, com minha história de vida, a dar valor a pequenas coisas, o valor das pessoas, a ser persistente e não desistir das coisas: eu vou à academia e não perco um dia de aula. Aprendi a ter paciência comigo mesma e superar os limites que a doença me impôs.

Laryssa Eduarda Paula Braz

Laryssa Eduarda Paula Braz, 19 anos, nascida em Contagem, filha de José Clemente Braz e Luciene Paula Santana. Tenho 04 irmãos. Estou cursando o 3º ano no Colégio Frei Carlos Vicuña. Atualmente estou desempregada.

Quando eu tinha 10 anos, sofri bullying na escola por ser gordinha e ter o cabelo crespo e isso me perturbou muito. Eu fiquei nessa escola durante 05 anos, mas tive que sair pois precisava trabalhar para ajudar minha mãe. Eu trabalhava como babá. Na mesma época, meus pais se separaram porque ele bebia muito e brigavam todos os dias. Sofri muito com a separação porque queria minha família unida e eu era muito apegada ao meu pai.

Quando eu tinha 17, anos meu pai teve um AVC porque ele bebia demais; isso foi em dezembro de 2017. Esse AVC o deixou sem os movimentos das pernas e agora ele vive na cadeira de rodas. À noite ele tem que usar fralda. Mesmo com a fisioterapia, meu pai não teve nenhum avanço para recuperar os movimentos da perna.

Em 2017 eu entrei no Vicuña, porque eu queria terminar os meus estudos. E um amigo me disse que aqui era uma escola muito boa se eu quisesse estudar de verdade. Logo depois, em 2018, minha avó adoeceu de câncer no pulmão, ficando internada no hospital 02 meses e eu era a responsável de ficar com ela. Por isso, muitas vezes eu tive que faltar à escola, pois tinha que dormir no hospital com ela.

Hoje em dia, além de estudar, eu cuido do meu pai. Às 6 horas da manhã eu vou para a casa dele, dou remédio, faço almoço. Depois disto, eu volto para minha casa (moro com a minha mãe), e arrumo a casa, lavo roupa, faço os deveres da escola.

Às vezes é muito difícil continuar estudando porque tenho que levar meu pai ao médico para fazer controle. E como ele mora numa casa que tem um barranco muito alto com uma escada e como a cadeira de rodas é muito velha, não dá para meu pai descer de cadeira. Aí eu tenho que levá-lo de cavalinho nas costas até chegar à parte onde o carro pode pegá-lo. Nesses dias eu fico muito cansada e muitas vezes nem dou conta de ir à escola.

Eu sonho uma vida estável, terminar meus estudos e conseguir um bom emprego. Eu gostaria de fazer uma faculdade de pedagogia ou pediatria (eu gosto muito de crianças). Quero casar, formar uma família e ter 02 filhos. Quero ter um bom emprego para poder ajudar mais o meu pai.

Eu aprendi que a gente tem que dar valor às pessoas que a gente ama, porque a qualquer momento podemos não as ter por perto mais. Eu só tenho meu pai hoje porque Deus foi muito generoso conosco. Aprendi que devemos valorizar a nossa família e valorizar a nossa vida, ter muito mais amor.

Maria Aparecida Moreira dos Santos

Maria Aparecida Moreira dos Santos, 47 anos, nascida em Governador Valadares/MG. Filha de Arlene Perpétua dos Santos. Eu não conheci meu pai, tive o meu padrasto Salvador Fernandes Nogueira. Tenho 03 filhos. Estou cursando o 8º período no Colégio Agostiniano Frei Carlos Vicuña e trabalho como auxiliar de refeitório na Plena Alimentos. Eu sou de uma família muito humilde e já cheguei até passar fome.

Quando eu tinha 12 anos, comecei a trabalhar como babá para poder ajudar a minha família. Como eu trabalhava, não tinha tempo para estudar porque trabalhava o dia todo.

Foi nesta época que o meu padrasto começou a me assediar sexualmente. Ele me ameaçava dizendo que ia matar a minha mãe se eu não tivesse relações sexuais com ele. Como eu não aceitava, ele me batia, me ameaçava com uma faca, falava que ia matar, mas eu nunca deixei ele me tocar. Meu padrasto não me deixava sair de casa, eu não podia ir nas festas, ir à casa de colegas e não me deixava arrumar namorado.

Aos 15 anos eu arrumei um namorado que teve a coragem de enfrentar o meu padrasto. E, achando que eu ia ficar livre de toda a violência que sofria em casa, aos 17 anos me casei com esta pessoa. Eu achei que ia ser feliz casando. Porém o que aconteceu foi o contrário. Meu marido começou a usar drogas (maconha e depois crack), e devido a isso ele não trabalhava. O dinheiro que eu conseguia do meu trabalho fazendo unha, ele me tomava e ia comprar drogas. Quando eu não dava o dinheiro, ele brigava e me batia. Nessa situação, muitas vezes a gente não tinha dinheiro para comprar comida e passei fome também.

Até que, um dia, eu comecei a trabalhar fichada na empresa Lar Fabiano de Cristo e aí eu saí do aluguel e fui morar no barracão que consegui. Eu trabalhei 10 anos nesse lugar. Foi onde eu me senti ajudada e acolhida. Em 2010, saí do Lar Fabiano de Cristo porque estavam reduzindo funcionários, e aí eu aproveitei o dinheiro do acerto e separei do meu marido, e vim para Belo Horizonte morar com meu irmão. Nesse período em que separei do meu marido, ele me fazia ameaças dizendo que, no dia em que me encontrasse, iria me matar. Desde que vim para BH, eu nunca mais tive contato com ele.

Quando cheguei a BH, eu estava muito desiludida da vida e sem esperança. Então comecei a beber muito, eu queria esquecer de tudo. Depois de muita luta do meu irmão e da minha mãe, que me ajudaram, eu consegui superar o vício da bebida. Em 2017 eu fiquei sabendo do Colégio Agostiniano Frei Carlos Vicuña. Voltei a estudar porque eu queria crescer na vida.

Eu sonho terminar meus estudos e fazer um curso técnico para trabalhar com idosos. Quero fazer um curso de informática também. Quero melhorar e ajudar os meus filhos a crescerem na vida. Para quem passa por uma situação dessa que passei, eu digo para acordar, abrir o olho e não deixar o marido ficar batendo. Eu aprendi a acreditar em mim mesma, saber que eu tenho valor, a ter força de vontade e a procurar crescer como pessoa. Aprendi a superar os obstáculos, não me acomodar e não abaixar a cabeça para ninguém. Hoje me sinto uma pessoa feliz, graças a Deus.

Poliana Petrolina de Jesus

Meu nome é Poliana, tenho dezoito anos, estou estudando na 1ª série do Ensino Médio. Sou da região de Ponte Nova – MG. Saí de lá com 13 anos. Essa mudança foi bem difícil: demorei para fazer amigos, para conhecer essa nova cidade, me enturmar. Moram comigo minha mãe e mais um irmão. Tenho outro irmão também, mas que não mora com a gente. Desde sempre fomos nós três: minha mãe, eu e meu irmão (ele tem problemas de saúde). Neste ano de 2019, eu consegui voltar a estudar, após dois anos, pois as escolas não o aceitavam, e eu tinha que cuidar dele. Neste ano, a escola Dr. José Roberto Aguiar o aceitou, o que possibilitou que eu também voltasse a estudar. Há dias em que ele não está bem, o que me leva a faltar às aulas, pois não temos ninguém para o acompanhar em casa.

Meus avós moram no interior, onde tenho outros parentes também. Não somos uma família muito próxima uns dos outros. Alguns, inclusive, não aceitam muito bem meu irmão e seus problemas de saúde. Uns não entendem. Outros simplesmente não o aceitam. Isso faz com que eu “carregue” muitos desses problemas sozinha, sem ter com quem conversar ou buscar apoio. Às vezes sinto que é uma responsabilidade igual à de ter um filho – mas ele é apenas meu irmão, não é meu filho. Meu irmão mais velho não nos ajuda muito, acaba ficando toda a responsabilidade para mim e minha mãe. Qualquer coisa que aconteça, somos nós duas – e apenas nós.

É muito difícil ter 18 anos e sentir que não tive uma infância comum, pois desde cedo minha mãe precisou de mim para ajudar a cuidar do meu irmão, da casa, e também ajudá-la. Minha mãe trabalha das 07 às 18h. Não tenho tempo nem condições de sair com meus amigos, e outras coisas comuns nessa idade.

Meu sonho é ser policial civil. Quero, com o meu trabalho, ajudar a realizar os meus sonhos e os próprios sonhos da minha mãe: ter uma casa própria, um trabalho bom, bem remunerado, dar condições de vida melhor para a minha família.

Mudar de cidade quando ainda era mais nova me deu uma sensação de medo. Não gosto de sair sozinha, ou ficar muito tempo longe da minha mãe. No entanto, estar num lugar diferente me fez descobrir novas amizades, com quem aprendo muitas coisas novas.

Estudar ajuda muito: pensar que estou no ensino médio me ajuda a pensar no futuro, a buscar informações sobre o que eu gosto de fazer. Estudar é um meio pelo qual vou conseguir realizar meus sonhos.

Mirlen Gabriela Silva da Silva

Meu nome é Mirlen, tenho 16 anos, sou do estado do Pará. Minha família é muito religiosa – nossa vinda para Minas foi para abrir um ministério da Igreja. Tenho uma irmã e dois irmãos, por parte da minha mãe. Somente eu moro aqui com meu padrasto e minha mãe. Meus irmãos ficaram em Belém, com minha avó. Eu vim para Contagem no início do ano.

No começo, vir para uma cidade nova, sem conhecer ninguém, é algo bem difícil. Há um sistema educacional muito diferente, as matérias, os prazos etc. Houve uma greve de professores durante 4 meses no Pará, e há várias matérias que estou procurando colocar em dia.

Em Minas, estou aprendendo tudo – tudo é muito diferente: palavras, costumes, comidas. É muito desafiador.

Morei com minha vó uns 4 anos. Meus pais se separaram, e não sei bem o motivo. Meu pai se casou novamente, e foi demorado, para mim, fazer uma aproximação com a sua nova esposa. Houve conflitos que acabaram me distanciando ainda mais do meu pai. Voltei a morar com minha mãe, com quem estou até hoje. Também tenho dificuldade para me abrir totalmente com minha mãe. Consigo conversar e me abrir mais com minha irmã, com minha avó – é importante ter alguém com quem conversar, poder se abrir, confiar.

Falar de sonhos e projetos de futuro ainda é um pouco confuso. Acho importante estudar, mas não sei bem o que vou fazer como profissional. Meu desejo é cantar! Meu sonho maior, mesmo é ver meus pais conviverem bem, podendo dialogar de modo tranquilo, convivendo bem com toda a família.

Aprendi a não desistir daquilo que busco. Mesmo passando dificuldades, é importante manter a esperança, aprender com as mudanças que a vida traz.

A coisa mais importante na nova escola foi a experiência de ser bem acolhida por parte de todos – os outros alunos, a direção, os professores e funcionários da escola. Isso me ajudou a sentir mais confortável e a me adaptar mais facilmente.

José Carlos de Oliveira Silva

Meu nome é José Carlos, tenho 15 anos. Estou na 2ª série do Ensino Médio. Venho de São João das Missões – MG. Sou indígena, da tribo dos Xakriabás. Tenho onze irmãos. Na cidade, são quase 13 mil pessoas. Em minha aldeia, são cerca de 500 pessoas. Hoje, vivemos em paz. Mas já houve épocas de conflitos por causa da terra. O mais difícil são os tempos de seca que enfrentamos – às vezes passa quase 01 ano sem chover.

Quando vim morar em Contagem, percebi que a vida é muito diferente dos costumes que temos na tribo indígena: lá, nós cuidamos dos animais e das criações, cultivamos as plantações e comemos aquilo que plantamos. Nosso trabalho está muito relacionado ao cultivo da terra.

Aqui, em Contagem, estou sob os cuidados de uma tutora. Vim para jogar futebol – esse é o desejo de me realizar profissionalmente. Vivo num alojamento com cerca de 22 jovens, que têm esse mesmo sonho. Minha rotina é estudar durante a manhã. Retorno ao alojamento, onde almoço, faço os exercícios, participo da escola de futebol. É difícil e cansativo conciliar isso com os estudos. Aos fins de semana, costumamos viajar e disputar campeonatos dos torneios Sub-17.

Meu irmão teve uma trajetória parecida com a minha. Ele veio para Belo Horizonte, estudou na UFMG, formou-se em matemática e voltou para a nossa tribo para dar aula. Meus irmãos continuam na tribo e trabalham na lavoura. Meu sonho é também me formar, continuar e concluir meus estudos. Se conseguir me profissionalizar nos esportes, no futebol, vai ser muito bom. Mas quero me formar também, ajudar meus irmãos a estudarem e terem uma boa condição de vida. Quero estudar na escola agrícola, voltar para minha tribo e aplicar lá os meus conhecimentos, ensinar e trabalhar para melhorar as condições deles.

Nelirosy Gonçalves Moreira

Olá! Meu nome é Nelirosy Gonçalves Moreira, tenho 22 anos, sou cristã, resido em Contagem desde quando nasci, moro com meus pais e irmãos, e venho de uma família simples. Fui aluna da Escola Estadual Doutor José Roberto de Aguiar até concluir o Ensino Médio. Nessa escola tive a oportunidade de fazer vários amigos e contar com a ajuda de excelentes docentes.

Trabalhei alguns anos com minha mãe na porta do Colégio Santo Agostinho Contagem, não tenho vergonha de dizer isto. Fui muito feliz durante essa caminhada e tenho orgulho por ter tido a oportunidade de ajudá-la e desenvolver esse trabalho ao seu lado. Sou grata aos meus pais, que ensinaram a mim e aos meus irmãos que devemos ter caráter, respeito e sermos solidários ao próximo, independentemente da posição social em que a pessoa esteja. E que temos a oportunidade de conquistar tudo o que quisermos sem precisar passar por cima de ninguém para alcançar os nossos objetivos; é nosso dever sermos empáticos pois não há dinheiro no mundo que pague retribuir amor e solidariedade ao nosso próximo. Vamos espalhar amor, ajudar e acolher as pessoas por onde passarmos. Somos protagonistas de nossas histórias e todos os dias temos a oportunidade de transformar o mundo e sermos melhores.

Vivenciei uma fase muito difícil quando descobri que estava com uma doença grave. Graças a Deus, tive apoio dos meus familiares e amigos. Aproveito a oportunidade para agradecer a Rosângela, mãe de uma aluna da nossa Unidade e toda a sua família, que ofereceu total apoio aos meus familiares. São pessoas maravilhosas, solidárias e dispuseram o seu tempo para cuidar de mim. Sabemos que o dia mau chega para todos nós, e que sempre temos algo novo para aprender com as adversidades… isso me trouxe uma grande lição: valorizar a vida, gratidão pelo simples!

Em agosto de 2018, a equipe do CSA-CT me recebeu de braços abertos. Agradeço às pessoas que confiaram e me deram a oportunidade de estar vivenciando uma nova experiência profissional; ao Paulo. pela paciência, profissionalismo e por me acolher tão bem em sua equipe do Pró- Aluno. Estou feliz e realizada por fazer parte desta instituição humana, amiga e acolhedora, pois todos os dias eu tenho a oportunidade de aprender e vivenciar algo novo. Obrigada pelo carinho!

Que sejamos sábios ao plantarmos e pacientes ao colhermos os frutos, pois tudo tem o seu tempo. Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou. Ecl. 3.1-2